dançando com vaga-lumes

Este é um conto antigo, um experimento feito na altura do ano de 2007. Para ser mais preciso, no dia 6 de novembro daquele ano. Hoje, portanto, ele tem 3 anos.


Resolvi postá-lo junto com esta ilustração, como um presente de aniversário.


É uma tentativa de imprimir robustez e de resgatar um material telúrico e primordial que deve existir debaixo das minhas unhas.





Para ler, clique na imagem. Eis:

eu quero o que eu realmente desejo?

"Essa história que começo a escrever é ainda mais difícil do que havia pensado”. Por ter me debruçado a vida inteira sobre questões mais ou menos importantes que esta, estive protegido e afastado; de maneira que agora, apenas posso discutir ou falar sobre isto partindo da vaga idéia que a maioria das pessoas tem sobre o tema. Direi de boa vontade aquilo que consigo imaginar e pressupor, com grande confiança na minha consciência, que tenho tentado arredar de todos esses relâmpagos, destes clarões efêmeros sobre os quais toda a consciência da civilização está edificada.

Há poucos dias fui bombardeado com críticas e aplausos quando externalizei o meu desejo mais imediato por agora. Meu coração mais uma vez se inquieta, como se, o aproximar do verão e a elevação da temperatura aqui nos trópicos fizesse o sangue fervilhar e transformar os sentimentos que uma vez catalisaram os desejos e posteriormente foram amenizados por todos os excessos de coisas e acontecimentos que se sucederam após a conquista daqueles sonhos. Cansado, excessivamente abalado por ter em mãos aquilo que gostaria de ter, não consegui entender até agora a troca da ansiedade anterior por outras mais lacerantes ainda.

Eu voltei a minha nação com um sentimento estranho e inexplicável, que não deixou, contudo, de promover nas mentes alheias todos os tipos de explicações e exemplos que me eram dados ou para mortificar minha alma ou, em poucas vezes, para acalentá-la. Nada serviu, no entanto. Eram como clarões de tempestades que penetram até em paralelepípedos, mas que instantaneamente desvanecem com o sobrepujo da obscuridade e da treva.

Este ano parece-me inteiramente perdido. Tenho me perguntando agora o que eu tenho feito senão me dedicado apenas à questões superficiais para tentar explicar o que me atinge no âmago, por ser incapaz de enfrentar aquilo que permanece intocado em mim mesmo.

Tenho me dedicado, espiritualmente, a partir novamente. Porque não fui feito para estar. Não fui feito para ser, apenas. Fisicamente estou aqui e só este fato é por deveras mortificador; sou tomado o tempo inteiro pelo sentimento de que só posso sobreviver e transcorrer paralelamente ao tic tac infinito do tempo com a consciência de que pouco a pouco alcançarei o clímax de parar de ouvir.

Justamente por esta condição, de ter que me reconhecer como existente, mas concordando que não passo de um ser tal qual Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez que foi certamente um modelo de soldado; porém, antipático a todos; sou tomado por este paradoxo existencial que tem pouco de edificador.

Não deve existir em nenhum de nós alguma matéria sólida além de silêncio. Nós somos um silêncio, um ponto de incompreenção fundamental em nós mesmos. Não temos expectativa de deixá-lo completamente claro, só os loucos, e ele nunca será claro. Podemos eventualmente, localizá-lo. Drummond localizou: a pedra no meio do caminho.

No entanto, eu vivo em uma época em que todos os caminhos e contornos estão cartografados, nos livros de auto-ajuda e nos outros subterfúgios. Não há como viver sem silêncio, mas sabemos que nem Macabéa conseguiu enfrentar o vazio e o vácuo criado por aqueles momentos em que estamos diante de outra pessoa e ficamos sem saber o que dizer: - Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

São essas intermitências que nos enfraquecem individualmente. São estes momentos que permitem aflorar os discursos coléricos, a extrema unção para almas perdidas neste vale desolado chamado realidade. Por isso, todos permitem serem enganados.

Eu, conscientemente, sei que, para onde quer que eu vá, serei silêncio. Mas eu preciso ir.

O meu nome é Wendel. Existem muitos por aí. A origem etimológica da palavra permanece obscura. Meu pai, antropófago e brasileiro de nome Walter, quando criança, ouviu a façanha heroica de um goleiro de futebol pelas vozes do rádio. Aparentemente equilibrado e bem ajustado, subitamente sentiu um estranhamento, uma inquietação e, disse: - Meu filho se chamará Wendel, tal qual este goleiro.

Eu, quando criança, pensei: - Preciso encontrar outro Wendel. Se somos dois, iguais, morremos e vivemos igual. Mesmo arroz e feijão, mesmos desenhos animados, mesmo destino. Vivendo sob o mesmo nome estranho e inexplicável saberíamos como destruir o descompasso entre nós e o mundo.

Meu nome é Wendel. Há muitos por aí, eu sei. Hoje eu descobri que pelo fato de não acreditar na força das palavras EU TE AMO, eu desejo sistematicamente que elas sejam repetidas mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez.

significa??

Estou cercada pela linguagem. Digo isso pensando em teorias. Leio, leio, leio... E copio o que mais me interessa. Algumas vezes paro, em silêncio, e as palavras há pouco lidas se repetem na minha mente até que façam sentido. Estudo a linguagem, a língua, suas teorias e leis... Posso entendê-las e posso usá-las, as teorias e leis, as regras. Mas, na prática, nada disso tem sido muito usado. É como se quisesse falar, mas não pudesse ou se pudesse falar, mas não quisesse.
Sei e isso incomoda. Antes não soubesse ou não entendesse. Sei e isso de nada deve me valer, porque sei e calo. Suponho que certas coisas não precisam ser ditas. Suponho que nem tudo precisa ser esclarecido. As coisas pairam sobre nós. Sentimentos e desejos não precisam ser ditos para existirem - existem e isso lhes basta. Mais ainda, sentimentos e desejos não devem ser sempre ditos, pois não há nas palavras e no discurso meios suficientes para dizê-los. A palavra é uma forma muito humana de construir o mundo, mas não estou convencida que possamos mais que isso.
Sei o que se passa e sei como dizer. Está tudo pronto, ensaiado, mas não posso transformar as palavras pensadas em palavras ditas. É como se esvaziassem-se de significado quando digo-as em voz alta. Toda a certeza que eu havia constuido se transforma em ruído que nada significa.
De que me adiantam as teorias se não posso dizer? De que me adianta saber?
Me confundo e já não tenho certeza se sei. Posso não saber. Talvez não saiba mesmo de nada. E fico presa, nesse ciclo vicioso, cheio de clichês, e em minhas negações, substantivos abstratos e sujeitos que não significam, que não dizem, que não são nada além de pedaços confusos de mim.

segunda ou terça-feira

Quando nesta manhã me dobrei para tirar do meu sapato, com um peteleco, uma linha negra; este gesto banal foi seguido por um deslizamento e avalanche de sensação, tal qual uma gota de orvalho ao cair, e ao me recompor - para dar continuidade ao embate monótono do cotidiano - senti-me constituído de gotas de orvalhos, muitas, infinitas, que ao caírem se desfaziam e voltavam ao telúrico, ao início, ao primordial.


Aos 23 anos, talvez eu nunca tenha sido tomado por essa tal avalanche de sensações e agora bastou eu me dobrar para tirar um fio negro do sapato para que essa ação transgredisse em mim, impetuosamente, essa percepção de vida vexante.


O tempo parece estar se arrastando com tal força, que meu corpo parece desgastado. Minha idade e meu tamanho sempre pareceram proporcionais, mas a ação intempestiva da natureza sobre meu corpo parece ter me diminuído. Sei que existem intenções, eu posso sentir a engrenagem das coisas propensas em relação a mim, mesmo que haja um invólucro que oculta o real, uma harmonia enganadora que me leva a um lugar remoto, iluminado por uma luz etérea, no entanto, mais espessa que o escuro da morte.


Nesta manhã, quando chocaram-se ambos, orvalho e solo, fui levado a concordar que há uma dissolução iminente e eu tenho sido atraído para esse desfazer. E assim passou a se debater em mim, como lutas intestinais, os motivos que fazem com que hoje sejamos levados para a cama de outra pessoa e no dia seguinte, de repente, nos separamos e não nos vemos mais. Nunca mais.



"Eis o que eu aprendi

nesses vales

onde se afundam os poentes:

afinal tudo são luzes

e a gente se ascende é nos outros.

A vida é um fogo,

nós somos suas breves incandescências."


Fala de João Celestioso ao regressar do outro lado da montanha.

(Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra - Mia Couto)

Um passado com manchas

São 3:15 da manhã quando começo a escrever esta postagem. Finalmente consegui terminar de ler Contos Inacabados, do Tolkien. Talvez a leitura mais exaustiva que tenha feito deste autor. Digo finalmente, pois nos últimos dias fui tomado por uma angústia e ansiedade por livros de aventuras que só são remediadas quando chego ao fim das histórias. Primeiro Moby Dick, depois Contos Inacabados e agora, como presente pela colação de Grau conseguida na altura do meu aniversário, o livro tão querido antes, mas nunca comprado, Contos Completos, V. Woolf. No entanto, 3h da manhã não é estimulante para começar uma nova leitura. Ao menos nesses tempos, que tenho sido obrigado a encarar a existência de um cotidiano não menos avassalador que os tempos desregrados da temporada europeia.

Não hesitei, contudo, em ao menos folhear o livro e ler a dedicatória feita pela minha tia, ao comprá-lo. Ao acaso meus dedos pararam no conto "A marca na parede", e como quem começa a ler despretensiosamente, cheguei ao final dele e de súbito me lembrei de uma daquelas tardes improdutivas na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o melhor esconderijo de portugueses e brasileiros, em que eu não conseguia dissertar sobre Baudelaire e tentei encontrar inspiração imaginando acontecimentos a partir de coisas que já tinha lido. Escrevi, então, o conto abaixo. Encontrei este arquivo em uma busca rápida pelos emails do yahoo.

É o meu ponto de vista através de uma leitura de um dos contos de Virginia Woolf, que talvez nunca tenha me chamado à atenção como Kew Gardens, mas que se tornou significativo como tem se tornado as coisas que aparecem em noites ocasionais como esta.

Apesar dos problemas estruturais e ser um texto mal escrito, a despeito de nunca ter passado por uma revisão, é um texto engraçado.

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Eu estava na biblioteca quando ouvi um grito de espanto ou de susto.

No momento que aconteceu não estava lendo nenhum livro, embora houvesse um amontoado deles a minha frente. Estava distraído, com o olhar fixo numa mancha na parede.

Assim, lembro-me que havia uma senhora ao final do corredor limpando obstinadamente algum líquido que fora derramado no chão. Eu, inerte e absorto no silêncio, pensava em como aquela mancha tinha ido parar naquela parede. Mas é surpreendente a rapidez com que nossos pensamentos se precipitam sobre outra coisa e quando tentamos voltar à coisa anterior já estamos perdidos num abismo enorme que separava uma coisa da outra.

Eu ouvi o grito e pensei que ele viesse de dois ou três andares acima, ou talvez abaixo.

Percebi que a senhora já não empreendia suas forças à limpeza e já tinha ido a qualquer outro lugar, sumido misteriosamente. Pensei em, talvez, investigar o grito, mas meus olhos novamente desviaram-se à mancha. Notei, imediatamente, que havia uma mesma mancha paralela. Eram pequenas e redondas, negras contra a parede branca. Não tinha certeza do que poderiam ser. Não me parecia um furo de parafuso ou prego, não parecia mesmo uma perfuração. No entanto, não tinha certeza alguma, pois quanto mais fixava o olhar, mais turva as manchas pareciam. Neste momento também, de súbito, veio-me a constatação que me ocorriam problemas na visão.

Oh meu Deus! Depois do fôlego e da resistência de antes agora apetece te tomar também a sanidade dos meus olhos? Eu que sempre fui a única pessoa da família com a visão perfeita. Minha irmã nasceu estrábica, perdeu anos da infância em tratamentos dolorosos para converter o diagnóstico – cuja cura minha mãe atribui a um milagre de uma santa – e depois foi premiada com uma miopia de herança paterna. Também não me recordo da imagem de tios e avós sem óculos, além dos primos. Já eu, sempre gabei de uma boa visão. Houve um jantar, lembro-me bem, que estava toda a família reunida a volta de uma prima que ganhara um anel de noivado com um diamante. Ela vangloriava-se do noivo rico, embora o diamante fosse minúsculo, imperceptível diante do mau gosto da colossal aliança que o sustinha. Tão pequeno que alguém disse: "não consigo vê-lo", e irresolutos notaram que o brilhante não estava lá. Era uma ilusão e por isso ninguém fazia ideia do tamanho ou sabiam quando sucedeu a perda. Prontamente jogaram-se no assoalho e começaram a investigar cada pedaço sólido que encontravam. Eu não dei importância e pensei mesmo que ela tivesse perdido em outra altura e que o desaparecimento seria uma daquelas perdas misteriosas que nos acontecem na vida e nos fazem pensar em como somos incapazes de evitar situações ocasionais, tão rápidas e fluidas, tão silenciosas, que nos deixam completamente perdidos no espaço e no tempo do acontecimento, desamparados pela incapacidade de nos ajustarmos e controlarmos o que possuímos. Mas quanto a minha visão, eu tinha uma capacidade de rapinante. Ao olhar para baixo, como por acaso, vi um ponto luminoso encaixado em uma fissura causada pelo frigorífico que tinha estado lá durante uns anos antes, o diamante. E, agora, mal consigo distinguir uma mancha superficial de uma perfuração. O que é de surpreender é que minha hereditariedade só tenha evidenciado-se neste momento, a essa altura da vida que tanto necessito dos meus sentidos. Era provável, que não tivesse ouvido nenhum grito, afinal. Podia ser que eu tivesse ouvido o que para os outros com visão e audição normal fosse apenas vento ou o ruído de uma cadeira. Se o enfraquecimento de um dos sentidos amplifica algum outro, isso seria perfeitamente aceitável. Já não havia certeza. Só queria poder recuperar a disciplina do trabalho que a mancha e o barulho me fizeram perder.

Daqui um ou dois anos serei, certamente, uma daquelas pessoas que nos perguntam qual direção tomar para a linha tal do metro. É curioso como um pensamento liga-se a outro e evoca acontecimentos genéricos e cotidianos que não importam em nada na nossa existência. Imaginei como eu ficaria exposto, insípido, inútil e pesado para este mundo, tal qual aquela senhora espanhola que pedi para tirar-me uma foto frente a um monumento qualquer e ela disse que não enxergava muito bem, quando eu disse, "apenas mire e aperte o botão" e percebi que ela não fazia ideia do que era um disparador, que talvez nunca tinha antes tocado em uma câmera fotográfica. Não ficaria espantado em saber que ela ainda fosse viva. O que é de assustar são os anos que passaram desde a fotografia. E eu estou aqui procurando as mesmas coisas que procurava naquela época. É como se eu tivesse apanhado um comboio daqueles super velozes, e atravessado toda essa biblioteca sem reparar em nenhum pormenor, tão instintivamente e rápido, tudo tão contingente, tão apenas por acaso. E, no entanto, a lenta derrocada de momentos como este da fotografia, que me afoga neste escuro e nesta neblina de tantos anos passados e me fazem deparar com uma mancha inútil e disposta simetricamente a outra numa parede qualquer, que, além, não ajudam nem dão alternativas nenhuma a qualquer duvida ou incerteza física e subjetiva que são inerentes a mim ou que se acumulam com as experiências repetidas, as quais permitem a caminhada pela agradável sensação de realidade, pelo vislumbre da solidez das coisas, do mundo impessoal a nossa volta, que despertam a aptidão para a vida e a felicidade, embora com a mais leve brisa, todas essas coisas misturem num instante e no outro desvanecem e se tornam uma mancha, tal qual esta na parede.

Enfim, não há mancha alguma. Mas viro-me para a parede paralela e a outra continua inerte. Então, o que foi isso? Um inseto? Uma sujeira? Não era nenhuma perfuração ou mancha superficial, mas uma protuberância? O que torna o diagnóstico da cegueira ainda pior. Talvez duas doenças combinadas.

E por quê? Afinal, por que somos submetidos a isso? Por que somos jogados nesses espaços de luz e trevas, cheio de repetição, cheio de pequenos mundos românticos, em que somos sempre vítimas em toda a narração e no fim a personagem descobre que não pensou ser o herói como se supunha. Mas o responsável.

É uma questão de importância, sim. Toda a realidade já foi descrita e perseguida. Para personagens só restam espectros sem profundidade e sem ação, permeados por uma única verdade: a morte. Que os romancistas modernos livrem-se desses reflexos de esperança, infinitos, mas afinal, vazios.

Quando deparei era muito tarde e eu estava atrasado para as aulas. Tinha estado perdido numa digressão sobre uma mancha por quanto tempo?

Subi as escadas e fui deixar os livros no carrinho quando notei uma certa confusão no saguão. Reparei em olhos perplexos. Estavam todos com um ar de espanto. As ideias vinham mas fugiam. Alguém chegou ao meu lado e disse:

- Encontraram um aluno morto na seção de literatura francesa.

sometimes always

inverno

presenças e ausências

Embora os dois graus na madrugada, faltam ainda duas semanas para o inverno. O céu era de caramelo e estava morno. Às vezes, tinha correspondência. Hoje teve.
A encomenda que eu esperava, tal qual algodão doce, chegou. “O que faltava ao peixe”
Eu, envolto em lã e algodão, calçando borracha, pisquei várias vezes os olhos intrépidos. Sou assim. Caminhei na direção oposta. Estava comovido porque eu tinha esquecido esse sentimento de correspondência. Não foi carta que me chegou, não era notícia que eu esperava. Mas fiquei com bem-te-vi selvagem na boca.
Enquanto o prendia, pisei num cachecol vermelho. Sem querer, abri os lábios. O cachecol não era sozinho no mundo. Fiquei sem nada, mas ganhei um obrigado. Anoiteceu lá no morro. Logo logo ela ia chegar aqui. Eu fui olhando o cachecol vermelho ir embora. Teve barulho de carro de polícia. Começou a tamborilar uma fina garoa no paralelepípedo. Vesti luva. Vesti capacete, como se fosse elmo. Vesti casaco, como se fosse armadura. Vesti saudade, com se fosse escudo. Quis um dilúvio, quis um meteoro apocalíptico. Mas só veio lembrança perquiridora. Fiquei velando o cachecol que rodeava aquele pescoço, ele foi sumindo e já não era vermelho. Mas eis que chega a hora de partir. Eu, por aí, usando tricô da minha mãe, sem esperar por nada, mas no fundo a esperar por algo. "É cada vez mais tarde. É cada vez mais tarde".

há um ano...

Há quase um ano abandonei minha aventura portuguesa para retornar, renovada, aos lugares que me acostumei a chamar de meus. Hoje percebo a intesidade da palavra "renovada" na frase anterior, pois ainda me sinto assim. A diferença é que também me acostumei a chamar aquela casa, aquela cidade, aquela universidade de minhas. E aprendi também a trazer o novo para dentro de mim e, depois, mostrá-lo a quem  opuder enxergar. Acredito que tenha trazido comigo um pouco de cada minuto vivido em terras de além-mar e que também tenha deixado por lá um pedacinho meu. É como um "até logo e me espere, que, um dia, eu vou voltar".

O Cheiro do Papaia Verde

Este é um filme romântico. É uma paráfrase moderna e oriental dos contos de fadas. Antes de tudo isso é um filme precursor; um grande impulso que me levou para além da esfera do sentimento e da experiência poética. Ele instiga tantas efeitos sensoriais que eu imaginei sentir o cheiro e o gosto do papaia.

Em mim, representa um reencontro com o diretor. Do primeiro filme até este, tem cinco anos. O primeiro, Luzes de um Verão, marcou uma incapacidade de entender o ponto de vista oriental sobre o mundo, sobretudo, do mundo moderno em contraste com a tradição. Mas eu era um calouro de Letras nesta época, que passava a maior parte do tempo sonhando e lendo Assim Falou Zaratustra, como uma forma de autopunição, do que vivendo. Apesar da idade, o filme ajudou a treinar meus olhos que tinham sido habituados a uma perspectiva dominante de cinema.

O fundamental do Cheiro de Papaia Verde são os planos-sequências longos - que constroem as cenas por entre minudências de janelas, corredores incertos e cômodos adornados - que eram pra mim o que um indivíduo benevolente é para um cego em meio à multidão. Eles pegavam em minha mão e me conduziam a um ponto qualquer descrevendo todas as coisas que viam. Mas para meu imaginário pueril e iludido, nada portava sentido, embora estivessem todas as coisas em aparente perfeita concatenação, naquele mundo tão ingênuo quanto eu. Neste tipo de cinema, tão avesso a minha verossimilhança, me deu a oportunidade, também, de encarar outra maneira de história, de viver. Embora a protagonista tenha passado a vida refugiando-se na densidade verdejante da natureza, tal qual um Rousseau no fim do seu tempo, não sobra nela nenhum sentimento de escapismo, nenhum sentimento de perseguição ou vitimização; mesmo porque, vez ou outra, os sons da guerra do Vietnã interrompiam o estalar dos legumes que fritavam ou os coaxares dos sapos nas bromélias.

A dialética do sentimento é um elemento que perpassa as linhas e as cenas. Em um momento são sobrecarregadas de acontecimentos velozes e que parecem injetar um vazio de entendimento. Em outros, incorporam um sentimentalismo e espiritualismo que procuram abarcar uma amplitude relutente daquele mundo às avessas. As metáforas atingem o alvo, são frequentemente irônicas, mas podem permanecer ocas e opacas se você quiser. Porque nada é capricho e malsucedido neste filme.

O Cheiro do Papaia Verde
(Mùi du du xanh - L'odeur de la papaye verte,
Vietnã, França, 1993)
104 Minutos

Diretor: Anh Hung Tran




http://www.youtube.com/watch?v=swyE32jpUEY