Big Bang


Minhas mãos coçam intermitentemente nos últimos tempos. Talvez seja o exercício da profissão que tem me provocado essa sensação de tato. Vivo de revisar textos, revisar ideias, revisar pensamentos, revisar complexidades e nem sou especialista nestas artes. Mas evoco o axioma para me justificar: Em terra de cego quem tem um olho é Rei.
Agora mesmo estou no ápice, nos últimos segundos, estourando o prazo e me desvirtuei completamente. Creio ser meu espírito indócil, preguiçoso, anarquista, o responsável por ceder às coceiras. Não sei se esse texto é resultado de reflexão ou se finalmente poderei distorcer a teoria vigente de que a inspiração não tem a ver com a escrita. No entanto, algo em mim me incomoda. Estou irrequieto, muito mais que o natural. Talvez seja a possessão do entusiasmo criador.
Tudo começou hoje pela tarde, minutos antes de cumprir o protocolo: vestir o jaleco, bater o cartão, empunhar os pincéis... Deixei o automóvel sob o clarão habitual desta terra, selecionei o material do dia, e me encaminhei aos portões imaculados. Era para ser uma passagem corriqueira, mas o operário responsável, aquele que detém a infinita e incólume simpatia cristianizada - independentemente da situação - proferiu o sermão do dia.
“Na Argentina já está faltando comida. Quem mandou aprovarem o casamento gay!”
Já há tempos eu me habituei a este tipo de interferência. Geralmente balbucio qualquer coisa em resposta, ou então digo algo incompreensível, muito recomendado e comum na minha profissão. Hoje apenas retribuí o sorriso e completei o apotegma.
“Realmente estamos perdidos”
Normalmente o único pensamento que me vem à cabeça quando tenho que passar pelo crivo deste “colaborador”, é “faça-o velozmente, evite contato visual”.
Tento poupar-me da estupidez diariamente, mesmo que, na verdade, eu possa combatê-la... pressupondo a hierarquia que o meu cargo me concede. Em verdade vos digo, sou apenas um cidadão domesticado (ignore o paradoxo) que quer passar despercebido no mundo real, sem levantar suspeitas ou frisson. Na juventude eu arguiria, argumentaria, lutaria; hoje, diante do meu passado de fracasso, procuro outros tipos de prazer.
Mas parece que desta vez algo tocou o âmago, faiscou. Há muito tenho assistido, prostrado, passivamente aos debates cheios de insanidade, demência, loucura social que tem tornado todo e qualquer tema abstruso, dual. Sei que já está longe o meu eu que sonhava e idealizava, hoje subsiste o eu preso ao presente, às contas, ao cansaço, à falta de tempo para pensar. Fatalmente me tornei o que, desde os primórdios, enojei: uma engrenagem – substituível, é preciso ressaltar (ou talvez tenha sido sempre isso). Mas parece o mundo mais confortável agora. Também é desde os primórdios que encontrei segurança numa cama quente e adequada (mesmo que nem sempre tenha sido); o que me move é o desejo de me aconchegar no final do dia, ignorando o ciclo. Mas nem só disso posso viver, está claro. Agora preciso destruir uns fantasmas, criar uma guerra, arriscar-me, sim, arriscar-me. Não me insensibilizar.
Eu vivo em uma cidade de empanados, posso andar 500 km em todas as direções e dificilmente encontrarei outra espécie. Anteriormente, todos meus esforços me fizeram distanciar deste lugar, mas eis-me aqui e o porquê é ser mais um vencido.
Em determinado momento, passei de filho imaculado e adorado a um pária. De criança, já faziam vistas grossas a minha determinação em não seguir o imposto. Mesmo quando ainda não tinha opinião, já não via sentido nessa expressão monástica, que ditava, amordaçava, e me excluía. Tive de lidar sozinho com isso, muito sozinho, mas venci. Não deixei que as chantagens, as repreensões, os castigos me fizessem aceitar a condição que me infligiam. Tentei, de fato, provar minha existência, minha individualidade, meu eu, sendo quem eu era. De antemão, entretanto, quero que não imaginem alguém totalmente seguro ou forte. Sempre fui pusilânime, covarde. Nunca me arrisquei a saborear uma pontuação abaixo da média na escola. Mesmo na universidade, apostei naquilo que parecia mais fácil e de fato foi. O que eu queria? Nem me lembro mais.
Acontece que eu estou com ¼ de século nas costas. Engordei. Sei que as arestas da engrenagem estão se desgastando lentamente e tão logo ocorra ela será reposta. Mas gostaria muito, se há alguém vivo aí que consegue me ouvir, que possa me entender ou que se sinta como eu, de ajuda. Eu gostaria muito de estar vivo quando as coisas já estiverem modificadas. É egoísta, mas minha condição só me dá uma chance. Não quero que pessoas de outro tempo leiam isto e se compadeçam, sintam-se felizes e reconfortadas por viverem no momento em que o mundo dirimiu os problemas, contornou as dúvidas, amenizou os conflitos.
Já não me basta viver sob o poder dos burocratas, dos criminosos, dos falsos profetas, dos desgraçados deste mundo. Não posso me confortar na alienação apenas, até mesmo a alienação poderá finalizar-se. Não posso me apegar a nada, pois nada é seguro. Preciso que alguém me ajude a encontrar um meio eficaz de disseminar a razão. Mas veja bem senhores interessados, não poderá ser pouco a pouco... Isto é pra já. Posso parecer alarmista, mas a verdade, quando empreendo um olhar histórico sobre as coisas, sinto que no final sempre há progresso. Tenho sangue, no entanto; sou destes seres da nossa espécie que sentem dor, que deseja inteireza. E acredito que um átomo, apenas um, possa desencadear numa desproporcional revolução.

o dia do fim do mundo


Madrid
 

Se degelasse, derretesse. Se, assim, instantaneamente, apodrecesse tudo antes preservado pelo frio.  Se o líquido azedasse. Se o cheiro fundisse. Eu morreria, também.
Mas havia calor. Embora alguma espécie de som me dissesse que, no entanto, era apenas o calor do dia. Indubitavelmente, após o dia, vem a noite.
É isto que temos; a perspectiva de, eventualmente, vinte nove mil e duzentas noites.

Eu cheguei ao apartamento e até então eu não tinha visto uma calmaria daquela. Em toda a cozinha não havia nenhuma parte que eu pudesse enxergar o piso sem vê-lo através da água. Um tapete; límpido, frio. Um espelho transparente, sólido. As cadeiras flutuando.
Aquela atmosfera fez com que eu me desse conta de que o único som que tinha ouvido, ininterruptamente, sem notar, em todos aqueles anos, era a sirene de ambulâncias e carros de polícias. Lá fora este eco irradiava dos quatro cantos da cidade. Isto é a civilização pedindo passagem, desesperadamente. É um eco persistente mas que acaba silenciando-se com o costume.
Eu estava um pouco embriagado. Faltavam alguns minutos para amanhecer. O ar amarelo acinzentado tingiu as montanhas, os prédios, minha pele, a febre. Eu sei que o dia do fim do mundo terá esta cor.
Eu precisava dormir. Meu corpo, no entanto, dizia-me que tinha se esquecido de como se dormia. O embate alucinante da sucessão dos anos o fez acostumar com o cansaço, com a embriaguez cotidiana, com o mole e o peso das horas.
Abri uma mala, retirei as etiquetas da última viagem. Arranjei umas roupas e sapatos. Antes que pudesse fechá-la, adormeci. Pois, no céu, o sol já vinha alto e a luz oprimia minha retina, dilatava meus poros, dava o tom à dança dos ácaros sobre minha cabeça.
O vento esfarelava, enquanto isso, as cortinas. Aqueles grãos iam parar sobre meu corpo até que formaram uma fina camada de alguma coisa mais perene que aquela sensação de proteção. Coloquei-me em posição fetal e só acordei dois dias depois.

Entrei naquele Boeing e como num chute atravessei o Atlântico. Aportei em Madrid, sem minha mala. Imediatamente estava na Gran Via. Vi um fantasma na entrada da estação de Callao. Era meu fantasma, há vinte e cinco anos, mirando Don Quixote através da lente da câmera fotográfica.
Naquele tempo eu estava sujeito a estas revelações. Aquela primeira vez em Madrid era sufocadoramente aniquiladora. O meu fantasma pousou o olhar sobre alguém, mas quem? Havia algo além de sobrenatural naquela visão – como dizer? O fantasma continuava completamente imóvel, a câmera fotográfica amarrada ao pescoço, pendendo. O olhar fixo.
Então o fantasma partiu, desceu as escadas da estação e se perdeu debaixo da terra. Havia o terror, a acabrunhante incapacidade de seguir adiante. Mas uma voz maior que o medo catalisou uma reação em cadeia no meu sangue. As veias arderam. Eu queimava de dentro pra fora. Uma lufada de oxigênio bateu violentamente contra mim, que permanecia imobilizado pela aparição. Fora este momento, tudo era completamente novo. Irreal. No entanto, o neon do Hotel Atlântico parecia o mesmo.
Esperei que a noite passasse. Comi dois ovos cozidos e um waffer. Desci e troquei seis, sete ou mais palavras com alguém no saguão.

- As pessoas deveriam ter o direito de ser felizes em seu próprio país.
Estava completamente desprevenido, pronto para explorar as escadas do Hotel como um cachorro e me recolher como um monge no quarto.
- Oh, se realmente pudesse viver de novo!
Esta última experiência abria em mim uma ferida, de persistência e coragem.  Momentaneamente!
Todos aqueles silenciosos, estóicos, nos sofás. As palavras dissipavam-se e eu me perguntava se algum dia eu conseguiria interpretar estes sentimentos em mim. Estas coisas estranhas de encontrar-me vivo, sozinho, desconhecido, em um saguão de um hotel que permaneceu intacto por vinte e cinco anos, como uma pirâmide. Como se vinte e cinco anos fossem vinte e cinco minutos.



2


Então nos encontramos nos Jardins do Bom Retiro. Sem nenhuma palavra havíamos nos reconciliado. Lola pôs-se a remar. Não dizíamos nada. Sabíamos que continuávamos estrangeiros, alienígenas. Há vinte e cinco anos quisemos ter neste mesmo lugar um momento extraordinário.
Então ela interrompeu:
- Na época das invasões francesas, Napoleão acampou sua tropa aqui. Tudo isto deve ter sido destruído. Agora, no lugar das flores filipinas, estão essas sapientes obras de arte.
E eu compreendi que ela continuava exposta, oscilante, torturada.
Ancoramos. Estendeu-se na grama e segurou meu braço. Estava sendo enforcada! e mais adiante via pessoas que a aplaudiam, que a veneravam, olhos atarantados que procuravam os seus. No entanto, estávamos completamente a sós. Ela não se importava e discursava. Repassava as palavras que, ocasionalmente, nunca diria.
 – O que você acha?
E eu me perguntava também, a mesma coisa. Mas respondi:
 – Você está pronta?  
– Como se fosse possível estar pronta e distinguir-se dos outros na guerra.
Somente, um leve enfado, um desvanecer de som na voz – enquanto o sol ardia tropicalmente – uma confusão ou o fato de conhecermo-nos por tanto tempo, indicavam que ela continuava uma desajustada mentirosa. Mas permanecia sentindo-se diferente, com sentimentos marginalizados e, de certa maneira, especial; pois tanto eu quanto ela olhamos para o céu de maneira reprovativa, com as mãos em toldo, como se assim suplicássemos ao sol – que de repente dilacerou uma nuvem e nos queimava como carne em chapa – perdão.
– Por que Deus fez o mesmo céu em todos os lugares, tão familiares? E por que os homens fazem tetos tão distintos?
Ela aquiesceu-se. Existia verdadeiramente, sem que pudesse negar. Eu sentia que àquela percepção de vida vexante se resguardava desejos telúricos e primordiais: como ter dinheiro suficiente para fazer aquilo que sempre quis; nada! E desta forma acreditar nas pessoas, mesmo no amor. Mas ela nunca admitiria e eu só poderia pressupor precariamente entre as aleluias e consternações de nossos encontros. Encontros que se tornaram precários com o tempo e a distância. Mas eu estava ali, tinha ido até o meio da Espanha, pois ela, enfim, receberia um prêmio pelo o que sempre fizera; poesia! E no discurso de agradecimento apareceria meu nome. Pele, dinamite, alumínio. Apareceriam, de soslaio, também, almas já mortas, cargas do passado, inegáveis. E, por isso, eu não poderia fingir desconhecê-los.
Nos meus ouvidos suavizavam sons de festas distantes. Pensava no meu cachorro chinês, na cozinha alagada, em Minas Gerais. Por um instante reconheci nela a catequista da quermesse da infância. O leite entregue na porta. A minha paixão pelos pastéis de queijo, a primeira golada de cerveja – entre as bandeirolas de revista e a poeira das montanhas. A solidão dos sinos centenários, enferrujados de calor. A inadequação e o estranhamento que eu tinha em estar nestes acontecimentos da juventude, que só anos mais tarde eu percebi o que significavam. O fato de qualquer cidade abaixo da linha do Equador ter um muito em comum de precário com a Macondo e os habitantes com os Buendía.
  
Crescemos violentamente, sem, no entanto, encontrar resposta alguma. Ela tinha se tornado o que queria. Uma poeta reconhecida. Mas pagou um preço alto, não tão alto como o meu, que era uma passagem de um trem sem paradas.
Sentados sobre a grama, poderíamos criar raízes, compartilhar. Mas hesitamos. Ainda havia algo a ser feito. Ela tinha, dali pra frente, a luta épica contra um câncer. Eu tinha um cachorro, um apartamento, um emprego, algumas dores nos ossos, alguns cabelos.
Ela, com sua mente senil de poeta, imaginava que nossa separação tinha ocorrido numa estação de trem. Eu embarcava e ela corria paralelamente, sem tocá-lo. Até que, cautelosamente o trem ganhasse velocidade e, em sua condição febril de humanidade, não mais pudesse acompanhá-lo. A verdade era que estávamos bêbados demais para conter as emoções, eu chorei em um taxi, entreguei-lhe um livro com uma marcação e desapareci em um aeroporto, sem olhar pelo espelho. Catorze horas depois, reconhecia entre vitrines de coxinhas e lingüiças, minha nação. E dali em diante, sabíamos; estava terminado. Mesmo que nos encontrássemos no mesmo ano, mesmo que pudéssemos ir ao mesmo café na praça do Marquês novamente, estava terminado. E, não nos encontramos no mesmo ano. Quando aconteceu já havia seis anos entre nós. Ela ganhou um prêmio para escritores com idade inferior a 39 anos e partiu pra Hong Kong, logo depois, pra escrever uma história de amor.
Nós, que nunca tínhamos sido verdadeiros amantes; no sentido real (?). Mas o mais próximo do que conhecíamos de amor verdadeiro. Eu voltei para o que poderia chamar de lar, construí uma carreira que nunca quis ter e deixei de lado o futuro que tínhamos traçado.
Ela nos julgava. Eu era o grande cavaleiro medieval acovardado. Era ela a amazona desbravadora. Pulava de país em país tirando poesia de esmalte e folha - rejeitava pedras-, conhecendo pessoas, relacionando-se com os personagens que criava. Considerava isso viver.
E eu deveria me culpar, por ter aceitado. Mas eu escolhi a vida.
E ela? Um câncer, um troféu.
- Eu tenho saudades do nosso futuro.
 
3


O hotel interditou-se. A cozinha incendiara-se. Eu vi o neon pulsante transformado em lava. HOTEL ATLÂNTICO avermelhado e liquefeito. O horror, o horror!
A crise deflagrou-se, instantaneamente. Havia, como sempre, sirenes. Reflexos rodopiantes, pessoas cadáveres, mendigos indiferentes.
Uma fina chuva começava a tamborilar sobre nossas cabeças. Em meus ouvidos chegavam sons monótonos, um tac tac irremediável, o estalar da água e do fogo, que ainda ardia. Subitamente o peso de uma cinza sobre mim me derrubou. Meu pulôver de lã começou a se desfazer, era calor. Era o calor e o peso do mundo. Tentei me recompor, mas este acontecimento estourou em mim um deslizamento, uma erosão, um morro em cavalgada. Um terremoto. Prestei atenção e me senti constituído de cinza e terra. Agora só enxergava o som das sirenes. Meus ouvidos silenciaram. Meu peito estava aberto, completamente árido. Brotava entre as rachaduras milhões de galho secos, retos. O orientar daqueles sentimentos, subindo e descendo na atmosfera, chocando-se em mim como raio lasers de filmes de ficção, destroçando meu corpo; foram interrompidos, subitamente, quando, portanto, apareceu um jovem com sua câmera empunhada.
Ele ajustava-se, contorcia-se, posicionava-se, procurava ângulos. Poderia enfrentar toda a tragédia do mundo através da sua lente Nikon, insopitável. Passou indiferente por mim, mas não pude deixar de reconhecê-lo. Este jovem, eu o vi uma vez em Ouro Preto, em um dia amarelo fraco. Os cabelos selvagens. Era um jovem da minha infância. Era aquele jovem frustrado por ter perdido um real na máquina de pegar bichinhos de pelúcia. Pois essa era a maior invenção daquela época. A possibilidade de, em vinte e três segundos, converter um real em algo muito mais valioso e eterno. Mas a decepção era incontornável. Um real era toda a mesada do mês, que seu pai concedia após o cumprimento de exaustivas e intermináveis tarefas.

Nunca fui a cerimônia, nunca soube, portanto, se meu nome fora citado no discurso de Lola. Eu sei que o meu não comparecimento não significava apenas um atraso. A morte entrava em sua festa. No entanto, não saberiam explicar. Duas camareiras e uma hóspede holandesa morreram no Hotel Atlântico.

Ouro Preto

As coisas sucederam-se tão rapidamente que eu senti uma força aterradora naquele ano. Lola morreu três meses após Madrid.
Eu sentia uma espécie de liberdade atormentada, úmida. Eu tinha atravessado muitos mares navegando uma embarcação rudimentar, vivendo antropofagicamente, naufragando, sobrevivendo em ilhas remotas. Mas no fim, era resgatado por acontecimentos que me atraiam para uma reconciliação com a vida.
Meus laços familiares estavam quase extintos. Eu era o penúltimo sobrevivente do sobrenome do meu pai.
Minha tia, já muito velha. Professora de matemática, aposentada. Desconhecia o poder das palavras: Te amo. Eu cheguei lá e em toda a cozinha uma ópera de fungos brancos modulava um odor acre e verde. Do piano escorria uma fonte necrófila, havia luzes de natal embora fosse março; sobre a mesa, três maçãs. Uma guirlanda de formigas.
Não havia relógio sequer. Na verdade, tudo estava à toa. Minha tia definhava no seu quarto, bonecas de porcelana, tapetes e sua gata. Eu senti que era um desses pedintes que nada pedem, pois não sabem o que querem. Ela me dizia: sua herança está aí.
Abri um álbum, novo. Ela dedicou-se a criar uma espécie de crônica fotográfica, sob um ponto de vista debruçado em mim. Recém nascido, a primeira bicicleta, o sete de setembro na escola, o Hotel Atlântico em Madrid...
Agradeci. Não notei imediatamente, só muito mais tarde, que ela havia deixado páginas em branco.
Ela quis mostrar que houve uma coesão em minha vida.
- “o homem envelhece, mas sua neurose não muda, antes se agrava”
Eu não esperava aquilo, agora. Em um pedestal estava a gata empalhada. O guizo de gato - este era o único barulho de Ouro Preto. No álbum, cenas que não vi. Minha mãe encostada em um Fiat vermelho, grávida de mim.
Não havia foto nenhuma dela. Só fotos de pessoas mortas e eu.
Ela não queria morrer, definitivamente. Sua fé, inexistente. Ela estava morta de medo. Mas eu que sobreviveria a todos, dizia.

Ela me disse que a cidade estava sobre aquela bruma há muitos anos. Eu acreditava, pois foi isso que ajudou os antigos. É um tempo para morrer também.
Além disso, acrescentou, que em um terrível dia, antes de ir pra cama, enlouqueceu. Preparava seu café, obstinadamente. Um raio muito intenso atravessou-a. Não fora atingida, como ressaltou. Foi um raio que entrou como uma cobra por um interruptor e saiu pelo outro paralelamente disposto. Bem a sua frente. Este acontecimento, por certo, embaralhou suas ideias, pois no mesmo momento viu refletir dos pratos uma luz estranha e desconcertada. Um magenta que cobriu como tinta a maçã cortada em quatro. O azeite era vinho. Sem fé, não pensou em milagres. Só sabia de milagres de santos, não de raios. Esfregou os olhos, duas, três vezes, e percebeu que a transformação tinha acontecido. As ladeiras de Ouro Preto eram, agora, uma pororoca de pedras e janelas coloniais. O pico Itacolomi, ao fundo, era um desfiladeiro de prata. Mas haja otimismo, pensei.
Estava louca.
Não morreria.
Ela era a única ateia que eu tinha conhecido.
 
2




Há uma força, um efeito e um esplendor em abrir janelas muito tempo fechadas. Um jato de energia. Há cemitérios que guardam a mesma potência. Todas as nossas cidades são cemitérios. Durante a noite, todas as janelas fechadas, as pessoas dormindo, protegidas, este pequeno espetáculo, abajures e lâmpadas. O vigor do ciclo, a civilização. Há uma crueza nisto, também. Há mais crueza nisto.
Nada aqui esquenta. Não borbulha. Vai o pobre descendo a rua. Vai o professor com o diploma escondido. O poeta está sentado frente ao Cine Vila Rica e ao contrário do que se imagina é a pessoa mais distraída de todos os tempos.
Há quem enxergue inesgotável linguagem nestes sinos. Mas para mim, eles terminam ao dizer-me que são vinte e três horas. A rua que se segue confunde minha mente. Uma subida sinuosa que parece terminar no infinito. Por trezentos anos esta rua é molhada vagarosamente. Isto, definitivamente, não pode ser chamado de cidade. Só coexiste um único bar. Barroco.
Olhei a placa de relance, um exemplo comercial atemporal. Lá dentro o único garçom que conheci: tentou se matar duas vezes.
Soube disso há vinte e poucos anos e agora espanta-me o fato dele ainda estar vivo. Diziam muitos que ele tentou subir o Everest na juventude e desistiu, pois só se tem forças para subir um Everest uma única vez.
Envolveu-se depois em um assassinato. Era apaixonado pela filha de um gerente de banco. Preparou uma emboscada com a amada, compraram revólver e corda. Amarram o patriarca em uma árvore perto da cachoeira do Falcão. Discutiram. Não havia morte nos planos, só dinheiro; mas ninguém pode prever os sentimentos.
O peso deste acontecimento o transformaria em outra pessoa. Mas ele se entregou.
Ela pulou da Curva do Vento e feneceu de fome e frio durante quatro dias, sem espinha, em uma pedra.
Depois disto não tentou se matar mais. Era uma espécie de auditor. Definia o momento para passar o trapo sobre a mesa do bar, o momento de retirar o cliente bêbado. Entendia todas as pessoas do mundo. Sabia exatamente o que os olhos do turista francês queriam dizer em português.
Nunca olhei diretamente para ele. Mas o conhecia.

- Uma cerveja, por favor.

Agosto


Agosto




Nunca permaneço inteiro após um agosto. Acho que é o mês definitivo, aquele em que todas as tensões de um ano se convertem. É o momento em que o ano chega ao limite e se ainda houver forças suficientes, avança em direção a dezembro.
Setembro já vai quase a meio e todos os sentimentos que afluíram em mim durante agosto começam agora a materializar minhas vontades. É tão estranho este momento que me confundo e me desconheço a todo instante, pois há dois segundos sou tomado por uma sensação vexante de agonia, sufoco, afogamento e noutro meus pelos ouriçam, meus olhos vertem em pranto; otimismo e esperança irradiam, uma força avassaladora que expande meus músculos, enrijece meus ossos, metamorfoseia-me em uma fortaleza.
Deixo a condição de Gregor Samsa para me tornar um colosso mitológico.
Pausa.
Acho que acabo de exagerar na comparação; devem ser os efeitos que provavelmente só se amenizarão em outubro. É melhor e mais conveniente encontrar-me em Sancho Pança e também Bentinho.
Enquanto eu observo infindáveis pastos verdejantes, a passarem pela janela do ônibus, vou reinventando esta estrada que me traz de volta. Só hoje entendo meu fascínio pueril pelas estradas. Desde a época que eu não sabia o que eram metáforas, gostava de imaginar que toda viagem era uma mudança, como se, a cada metro avançado por meu pai com o carro, fosse, realmente, um progresso naquela aventura completamente nova, absolutamente desconhecida. É este o poder da estrada, de renovar, automaticamente, o espaço; é a materialização do presente.
Esta ideia fortificou-se ainda mais quando eu entrei em um Boeing e como num chute atravessei o Atlântico; rapidamente tinha mudado o cenário, avançado 4 horas no relógio, diminuído 40° no termômetro e me perguntava – Como não percebi toda esta mudança instantânea?
Certamente este efeito não seria possível de ônibus ou de carro, mas somente com eles poderia viver a viagem na estrada. Foi nesta época, também, que enraizou a ideia em mim, de que somente contornando uma estrada fosse possível voltar ao passado. Portanto, toda estrada, é também, uma máquina do tempo.
Coincidentemente, na minha volta ao Brasil, recebi de presente de um destes amores uma tela com as seguintes inscrições:
Estamos indo sempre para casa, essa coisa de ir de volta não existe, não há regresso.
E desde então, estive angustiadamente influenciado por estas palavras sem sentido. Por mais que eu me afastava mais perto de casa eu estava.
Neste agosto ressurgiu em mim um inquietamento. Acordei formigando pouco antes do meu aniversário e como suspeito da influência de agosto também sobre as outras pessoas, uma sucessão de fatos começou a me desapontar no trabalho, com os amigos, sim, sobretudo com os amigos... Começaram a surgir provas e testes cotidianos que, eu tinha certeza, queriam romper minha resiliência. Eu sei, pois todo agosto é assim. De fato, senti-me vencido muitos dias, mas era um jogo infindável, um martírio. Eu perdi pequenas batalhas mas permaneci incólume; chegava ao fim do dia e resquícios de força começavam a se superlativizar. Era a brecha do inimigo que se retirava propositadamente para me manter vivo. Eu compreendi, tão logo, que estava em um jogo sádico. Tratei de bolar um plano. Fingi continuar como uma resistência, uma guerrilha na selva. Mas o plano mesmo era mudar subitamente; enganar a todos, pegá-los de surpresa.
De repente, eu estava em uma estrada, indo de volta pra casa.

Retorno


Volto a escrever no Thescontrolados não somente pelo fato de vir ensaiando este retorno há tempo, mas porque preciso.
Não me parece ser a primeira vez a dizer isto, mas escrever é algo, desde que eu aprendi a fazer, apaziguador.
Eu sei o que me fez deixar de lado este hábito. Na verdade, foi difícil estar aqui. O caminho percorrido até hoje e o momento que deixei de escrever talvez tenha sido o mais tortuoso, íngreme, fechado. Uma sequência de fatos somados me arrancou do hábito. Foi vertiginoso, catastrófico, dramático. Há menos de um ano e meio eu estava completamente perdido. Tinha me formado, tinha todos os planos traçados, mas subitamente, literalmente da noite para o dia, as coisas mudaram. Vim a um lugar novo, embrutecido pela dor e pelo sentimento de ódio, de vingança.  Hoje sou levado a concordar que estes sentimentos catalisaram minhas ações. Não consigo me recordar de ter sido tão influenciado antes.  No entanto, paulatinamente, o cotidiano foi me afastando disto. Muito raramente eu me lembrava,”estou aqui hoje por causa...”.   O fato é que a vida é tão rápida e monstruosa. Eu fiquei acuado, fragilizado. Mas na minha porta batia todos os dias e ainda bate um minotauro novo. Nenhum dia não é um labirinto.
Ainda há muito a se fazer, muitíssimo. Sinto estar muito fora da estrada, em algum atalho ou caminho alternativo. Meu diploma está inutilizado. Larguei a imaculada profissão de professor e me tornei um homem engravatado, que ganha o seu pão no coração da cidade, dentro de um escritório branco, cadeiras pretas, papéis, telefonemas, elevadores, ar condicionado. Odeio a gravata. Só compensa a vista da minha sala, o cheiro do mar a tarde, as luzes da cidade vistas de cima a noite.
Queria ser professor. Fui chamado, depois de um ano. Financeiramente não é o que eu quero mais. Continuam insistindo, mas não estou preparado para deixar tudo e voltar assim. O meu objetivo era este, era o que eu imaginava. Ainda sou professor, na verdade. Corrijo todas as redações de uma escola e dou aulas em alguns fins de semana. É como um hobbie, confesso; suspeito que talvez seja um ensaio para um retorno, mais tarde.


Vista da minha sala




Salve, Salve

Salve, rei! pois que o és. Olha onde se acha a cabeça maldita do tirano. O mundo já está livre. Ora te vejo cercado pelas jóias de teu reino, que saudação te enviam do imo peito e a cujas vozes associo a minha: sê feliz, Rei da Escócia!

Muito mais do que dizer... Me resta sentir!

Há muito tempo eu não posto nada aqui. Mas nunca deixei de vir, de ler, de participar - mesmo que distante. Acontece que fui vendo meus amigos escreverem coisas cada vez mais profundas e algumas vezes bastante doloridas. E percebi que enquanto Débora e Wendel escreviam suas tragédias e medos, coisa que poucos sabem fazer, eu continuava fazendo pequenas crônicas da vidinha mesma que eu levo. 
Tudo mudou, é verdade. Mas tudo insiste em ser igual. A vida é mesmo uma enorme antítese (ou, quem sabe, um oxímoro!) e a falsa ideia de que tudo é sempre tão grande e importante faz com que a gente se sinta também grande e importante. E me faltava essa importância, essa grandeza pra me juntar a voz dos que lutam, procuram, sentem tanto e tão profundamente!
Há muito tempo não encontro palavras para escrever ao lado dos meus amigos. Nós sempre fomos muito diferentes. E hoje, tanto tempo depois, tenho a certeza que somos os mesmos e somos extremamente diferentes, mas somos nós e temos uma dádiva que não se resume a este blog, mas que paira sobre nós aonde quer que estejamos.
Temos um ao outro mesmo que a geografia insista em dizer o contrário e mesmo que não nos falemos mais todos os dias, mesmo que o conhaque ou o vinho do sábado não seja mais compartilhado e mesmo que às vezes sequer nós mesmos percebamos essa presença sempre tão discreta e tão forte que é a amizade.
Sinto-os comigo, queridos. Sempre. Infelizmente de uns tempos pra cá sua presença tem nome: saudade.
Mas ainda há muito para vivermos e não interessa se eu estou no interior e cada um de vocês em um litoral, com um oceano inteiro nos unindo... Sim, unindo. Pois não há nada que possa nos separar.

s2

O direito à heresia

Volto a escrever depois de tanto tempo pois chegou a hora de ser franco.Eu não desisti deste blog, embora não reconheça mais o propósito dele depois destes dois anos. Não sei, na verdade, para quem escrevo ou o motivo de escrever. Sei que a vida inteira eu escrevi por não ter com quem falar. É isto a melhor coisa que aprendi, escrever. Como em outras épocas difíceis eu fiquei paralisado. A dor estafa o corpo. A injustiça petrifica.


Desde criança, desde quando, democraticamente, eu era obrigado a fazer juramentos perante a bandeira ou rezar o pai nosso na sala de aula eu acreditava que estava seguro ou ficaria seguro para sempre se seguisse o frágil mapa que orienta nossa civilização. Como disse José Saramago “O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”


Óbvio que eu seria rebelde. Meus pais ainda levantavam as mãos para o céu e perguntavam: ”por que ele é assim, o que fizemos de errado?” Na escola eu levava a sério aquilo que a História dizia sobre democracia, sobre direitos humanos. O meu problema foi nunca entender muito bem sobre utopia. Meu calcanhar de Aquiles foi ser sempre facilmente enganado por estas promessas. Faça isto e se dará bem. Siga corretamente todos estes passos e será feliz, estará seguro, terá seus direitos salvaguardados.


Viramos o milênio e ainda há pessoas que estão completamente certas sobre como se deve viver toda a humanidade. “Este cara aí não acredita em Deus, ok?” “Vou te pedir, mesmo que você não acredite, por favor, não coma carne vermelha na sexta-feira, ta bom?” “Sabe, eu sou apaixonado por ele, é uma pessoa incrível e bondosa, mas não tem Deus no coração”


Há um erro terrível e, no entanto, ignorado neste vasto mundo. Primeiramente, estamos contando nossa época a partir do momento em que dizem ter vindo o Messias para cá. Dois mil e onze depois de Cristo. E é isto que temos. Portanto, não se pode contestar nenhuma das coisas. Podemos, sim, olhar para o passado e dizer, como eram tolos os nossos ancestrais e como somos sábios. Sabemos e vivenciamos o fim, não há mais nada. E este erro sustenta toda a prepotência da humanidade. Infortunado é o homem que enxerga a contradição deste discurso.


Durante todos estes séculos queimaram pessoas, enforcaram, torturaram. Levaram grandes contingentes de mortais a guerrearem. Por que, então, as pessoas continuam a levar tão a sério estes argumentos dolorosos e sangrentos? Porque ainda estão lutando, torturando, excluindo, queimando, julgando pelo o que acreditam ser certo.


Sendo assim, nossa frágil democracia continuará vulnerável. Todos os cidadãos continuarão à deriva neste mundo. Por este mesmo motivo a Carta dos Direitos Humanos continuará a ser somente palavras ao vento e continuará a contar mentiras para crianças como eu.

Cão insano / A crônica do quarto ensanguentado



Publico, agora, um conto feito na altura dos meus 16 anos. Ele foi publicado por um professor quando eu era calouro na Universidade e hoje já tem mais de 5 anos, mais ou menos.


Não mudei nada no texto, embora tenha tido vontade. A ilustração é completamente inédita.


Cão insano
Minha mãe sempre disse aos berros:


-Você é um louco!


Louco? Eu não era louco, não poderia ser. Tudo era proposital. Às vezes, quando queimava insetos vivos ou caçava pássaros para arrancarem-lhe os olhos e os bicos, ou quando abria ratos torturando-os, sempre, em todos os momentos, sabia o que estava fazendo, fazia de desígnio, gostava daquilo, mas sabia que era errado. E por isso não sou louco, pois loucos não têm consciência do que fazem.


Um dia qualquer, porém, o bater insofismável do coração de meu cachorro me atordoou. O vira-lata gracejava no tapete toda sua forma corpulenta impura, com sua baba asquerosa no assoalho pingando e seus pêlos se espalhando com o vento, enroscando-se um nos outros e parando perto do vaso de dálias, no canto imundo, cheio de mofo e umidade. Mas isso, toda essa condição degradante, não me incomodava. O fastidioso bater, no entanto, daquele tam tam irremediável incitava toda a cólera em minhas entranhas. Chegava ao meu ouvido um som baixo, monótono, rápido, como de um relógio quando abafado por uma almofada e, eu sabia, repito, era o coração do débil animal a minha frente.


Contudo, eu me continha. Tentava manter fixamente meus pensamentos em outras coisas. Podia ouvir muitas músicas, certamente desenfreadas e desconexas, mas lá estavam elas, em minha mente, tocando cada parte; até que, de repente, a 5° sinfonia de Bethoveen fosse rompida pelo horror, por toda a maldição dos meus ouvidos sadios.


A cada instante o som ficava mais rápido, mais alto, mais rápido, ainda mais alto. Sentia meus maxilares tremerem com as ondas sonoras que irradiavam da criatura ignomínia e me consumia, destruía-me virulentamente, incitando toda a insanidade contida que não mais estava em meu controle.


-A sua hora chegou maldito!


Gritei como um histérico ao voar em direção ao cão que se debateu freneticamente enquanto eu o estrangulava, mordendo-me, unhando-me, exalando toda a sua podridão de raça impura, impregnando em minha pele, em minha roupa, forçando-me a largá-lo.


- Que nojo! Que ódio, Que nojo! Ser tétrico, pérfido, asqueroso, vil!


Bradava colericamente no momento em que ele guinchava sufocado olhando para mim, implorando ajuda, piedade.


Neste momento, somente neste, fui um louco. O trivial cortou meu coração. Rompi em prantos diluviosos que racharam minha cabeça com uma dor insuportável. Abracei-o, tentei confortá-lo, sem cansar em nenhum minuto. Ele tinha de viver, não podia ir embora.


Não obstante, todos os esforços que perpetrei durante todos os trinta minutos ali no chão, abraçado ao cachorro, foram precisamente os causadores de seu óbito. Abraçava-o com tanta força que não pude perceber que estava debelando-o ainda mais. Estava morto. Virei e examinei o cadáver. Sim, era uma pedra. Coloquei meu ouvido no coração e ali o mantive por muito tempo. Estava petrificado, não mais me perturbaria.


- Achas mesmo que sou louco mãe?


Minha consciência gritava a cada segundo com ecos infindos que irradiavam por todo meu corpo, proporcionando-me um prazer suntuoso...


Logo depois que constatei a morte, minha dor de cabeça desvaneceu levando consigo todo o pranto que me rebaixava à condição ignóbil do demente oclocrata1. Mal pude me conter de excitação quando me veio à mente que o cão era a paixão de minha mãe, que ela o amava mais que a mim mesmo, que ele era seu companheiro, confidente; o único que poderia deprimi-la se morresse.


Bem-feito ser maquiavélico, sem alma e sem pudor. Ladrão de mães, sorrateiro caçador de gatos, ínfimo hipócrita. Nunca mais roubaria meu lugar de direito, ser miscigenado, sem pedigree. Eu o matei, eu o matei!


Então o cortei. Esquartejei-o e arranquei sua pele.


O badalar infernal do sino da igreja anunciou o fim do dia; e era a hora em que minha mãe chegaria para cumprir com seu ritual cotidiano, entrando pela porta dos fundos, chamando pelo detestável, acariciando o pérfido, servindo-lhe comida; para depois, só depois de todo o trato, retirar o riso incivil dos lábios sem carne e me dizer com sua voz de tristeza, de desprezo.


-Boa noite.


Ah! Desgraçado! Seu sangue negro infestou todo o piso e a cal da parede. Não mais teria tempo de escondê-lo sem deixar vestígios. O que faria? Os passos maternais já eram evidentes e o nitrir enferrujado do portão denunciava sua chegada.


Ela me odiaria mais!... Ela me chamaria de louco... Me odiaria ainda mais, muito mais e eu não poderia suportar, e eu não sou louco...


A faca em minhas mãos, ensangüentada e gordurosa, me salvou.


Meu coração trovejou por um segundo e qualquer mortal em um raio de cem metros pôde ouvi-lo com toda a sua intensidade e plenitude, pela última vez.


A porta aberta com violência mostrou os olhos atônitos e lacrimejantes de minha mãe. Ela gritou:


-Seu louco!


E a faca ultrapassou a pele, rompeu o músculo; o sangue esguichou e parou em todo o corpo com sua marcha nupcial em direção às minhas células.